terça-feira, 11 de agosto de 2009

MST: Uma luta de todos


Ainda pelo Ceará, tive a oportunidade de participar de um “núcleo de vivência” com o MST (Movimento Sem Terra). Com certeza, uma das experiências mais emocionantes que já tive na vida. Algo totalmente intransferível, e que só vivenciando e sentindo na pele pra conseguir mensurar o que vou falar. Mas é importante frisar que minhas palavras jamais vão conseguir transmitir de fato a essência dessa causa, por isso aproveito o espaço e faço um convite a você pra conhecer de perto essa realidade que também é nossa.

Como havia dito antes, a visita ao MST do Ceará se deu através do núcleo de vivência organizado pelo Enecom. A proposta da NV’s, era conhecer um pouco da história do assentamento e como os assentados vivem, refletindo sempre nas políticas sociais defendida copiosamente por eles.

A nossa “aventura” começou quando chegamos ao município de Caucaia, a 16,5 km da capital do Ceará, Fortaleza. Como o caminho até o assentamento mais próximo era longo e de difícil acesso, tivemos que andar 2 km por uma estrada coberto de pedras e buracos. A cada passo um novo começo, foi pensando assim, que no momento que seguíamos por uma trilha em meio a caatinga e o sol quente, uma nova reflexão nos era apresentado, dessa vez por um dos moradores do assentamento. Chegando lá, descobri que a nossa caminhada não foi em vão, pois aquele trajeto que percorremos, foi o mesmo feito por 11 famílias desabrigadas em uma madrugada à luz da lua. A invasão se deu pela desapropriação de terra, por uma fazenda inutilizada de um antigo prefeito do município de Caucaia-CE. Durante os dois quilômetros conhecemos uma vida de luta e superação. Mas o bonito nem era os relatos em si, mas sim a maneira que eles nos contou a história daquele assentamento, sempre com a emoção gritando mais alto.

Seguimos caminhada ao ritmo de uma melodia puxada por um dos moradores, que dizia mais ou menos assim: Vem, lutemos punho erguido /Nossa Força nos leva a edificar/ Nossa Pátria livre e forte /Construída pelo poder popular. Chegamos ao assentamento, logo na entrada é visível a placa do governo do Ceará anunciando a propriedade de terra. Em conversa informal, descobri que eles não gostam daquela placa, mas o governo só ajuda se aquela placa estiver lá. Como assim ajuda? O governo construiu uma fábrica de confecções, onde eles trabalham para o seu próprio sustento, como costura, bordado, sempre com objetivo-mor de manter a sua auto-suficiência.

A terra é grande e produtiva, possuem casa de tijolos, diferente de outras realidades que conhecemos na TV. Na verdade é similar a uma fazenda, possui pasto pra gados, tem energia elétrica,e a água ainda está chegando lá, o governo está furando um poço. Nesse assentamento mora 11 famílias, todas elas registradas, pois para conseguir um espaço ali, não é apenas ser despejado e coitadinho, tem que passar por várias fases que eles chamam de “amadurecimento”. Como por exemplo, conhecer os ideais de luta do movimento, e vivenciar situações como passar no mínimo um ano em assentamentos em BR federais, morar em casa de Lonas, entre outras coisas. Lembrando ainda que esse assentamento do Ceará, é subdesenvolvido, eles estão emergindo para produzir aquilo que vão consumir, mas uma coisa pelo menos eles conseguiram, a tão sonhada terra.

Uma crítica que eles fazem, está relacionado a imagem que movimento é atribuída pelos meios de comunicação,sempre como invasores, bandidos e opressores. Porém quando se está próximo a eles, percebemos que essa imagem foi nos colocadas, e não condiz muito com a realidade dos fatos. Eles próprios criticam a mídia e a sociedade por plantar essa idéia que julgam ser de favores aos anseios da burguesia. O interessante aqui é perceber que a política adotada por eles são humanas, e a maioria é voltada exclusivamente para a distribuição de terras e igualdade social.

Mesmo assim, percebo que lá eles realmente vivem em comunidade, pois não há lutas de classes. Só pra vocês terem idéia do que estou falando, a polícia não tem acesso ao assentamento, até porque é distante. A justiça também não. Ou seja, todos os problemas pessoais ou não são discutidos pelo conselho naquela fábrica de confecções que comentei logo acima. E esse conselho é responsável por decidir o que fazer e quais procedimentos a tomar para a solução dos problemas. Durante a nossa visita, nos deparamos com uma cena intrigante. Um dos moradores do assentamento agrediu verbalmente um senhor de Caucaia. O mesmo com um carro fora até o assentamento “tomar satisfação”. Creio eu, que ele estava armado ou coisa do tipo, pois além de estar sozinho, ninguém se deslocaria pra tão longe para “conversar” apenas. O cara quando percebeu a nossa presença ficou intimidado e saiu em alta velocidade pelo caminho de pedras. E agora o que fazer? Perguntei para um morador, ele simplesmente me respondeu, a polícia não entra aqui, e se ele fizer alguma coisa com a gente, nós vamos fazer com 10 de lá. Percebeu a união? Mas foi com essa resposta que medi a belicosidade de se viver ali. Mas a culpa é de quem? Nossa! Sim, pois eles já nasceram marginalizados, porque são pobres e não possuem terra, ou seja, são excluídos do sistema! Vem me dizer que você conhece o MST como coitadinhos? Aposto que não, nem eu os conheço assim. Mas é interessante observar que a ideologia deles faz sentido a partir da óptica de se eles foram excluídos da sociedade, é justo eles seguirem a ela? Também acho que não, deve ser por isso que eles fazem as próprias leis e vivem como pode. Lembrando a você que ela sempre será baseada naquilo que eles levantam e acreditam, basicamente idéias socialistas e comunistas! Por isso desses sistemas estarem sempre atrelada ao movimento.

Sair de lá com a convicção de que o problema também é nosso, e que a sociedade além de julgar e excluir o MST deveria parar pra conhecer e refletir nos ideais de comunidade que eles praticam, como por exemplo, de respeito ao próximo e igualdade social. Talvez assim, me pouparia de presenciar tantas disparidades sociais. Mas aquilo pra mim seria passageiro e como foi, mesmo porque mais tarde eu voltaria pra casa e me lembraria deles no noticiário da TV, sempre atrelado as invasões, ou escrevendo aqui no blog. Mas agora é diferente, eu conheci os outros lado.

Hino do Movimento Sem Terra
Letra: Ademar Bogo
Musíca: Willy C. de Oliveira

Vem teçamos a nossa liberdade
braços fortes que rasgam o chão
sob a sombra de nossa valentia
desfraldemos a nossa rebeldia
e plantemos nesta terra como irmãos!

Vem, lutemos punho erguido
Nossa Força nos leva a edificar
Nossa Pátria livre e forte
Construída pelo poder popular


Braços Erguidos ditemos nossa história
sufocando com força os opressores
hasteemos a bandeira colorida
despertemos esta pátria adormecida
o amanhã pertence a nós trabalhadores !


Nossa Força regastada pela chama
da esperança no triunfo que virá
forjaremos desta luta com certeza
pátria livre operária camponesa
nossa estrela enfim triunfará!

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Descobrindo a terra de Irapuã de Iracema e Tupã


Era manhã ensolarada quando chegamos a Fortaleza. Ao adentrar na cidade tivemos uma surpresa, aquele cartão postal que vimos antes de viajar no Google imagem, não surgia em nenhum momento. Cadê? Apenas nos deparamos com um cenário urbano subdesenvolvido em meio ao caos.

Calma lá minha gente, as praias e o mar existem sim, mas sabe como é né? É difícil compreender que nem tudo é de fato como é nos mostrado. O que eu quero romper aqui é a idéia limitada que temos de Fortaleza, por estar sempre vinculada ao cenário litorâneo proposto nos cartões postais. Além das belíssimas praias que existem, fato, habitam outras belezas pouco exploradas pela mídia que compõe o cenário urbano também. Por exemplo, a arquitetura do lugar, sendo ela quase toda herdada na colonização está perceptiva nos casarões espalhados pela cidade, no theatro José de Alencar, nas igrejas, e nas ruas e etc. Tudo isso vem resgatar um pouco da história daquele lugar que juntamente com Parnaíba fez parte da capitania hereditária do Ceará.

Se fôssemos definir “Fortal” não poderíamos deixar de citar elementos como a música, a arte, a literatura, a cachaça, o comércio, a culinária, o vocabulário, enfim todos esses costumes que forma a identidade do povo cearense. No entanto não quero e nem tenho pretensão alguma de romantizar esse texto dizendo apenas palavras bonitas e pontos positivos de lá e esquecer-se das disparidades sociais que é evidente em todo grande centro nesse país, e infelizmente provoca outros sérios problemas, como a violência, a marginalização, o tráfico de drogas e a prostituição. Em Fortaleza isso é gritante, devido ao grande número de turistas estrangeiros ou não que visitam todo o ano a capital do Ceará. Os assaltos, assassinatos, homofobia, pré-conceito racial, prostituição de menores entre outras coisas que ajuda a pincelar o cenário horrendo de uma cidade que não tem nada de Fortaleza, pois é frágil e hostil. Porém é atrativa e bela, sua gente, sua cultura, seu estilo de vida, o clima agrádavel. Foi descobrindo o nordeste pela primeira vez que me lembrei de Luiz Gonzaga, e mais precisamente de uma canção, essa que fala um pouco dessa experiência fantástica de [re]descobrir algo que já está enraizado.

A Vida do Viajante

Luíz Gonzaga

Composição: Luiz Gonzaga e Hervê Cordovil

Minha vida é andar

Por esse país

Pra ver se um dia

Descanso feliz

Guardando as recordações

Das terras por onde passei

Andando pelos sertões

E dos amigos que lá deixei.

Chuva e sol

Poeira e carvão

Longe de casa

Sigo o roteiro

Mais uma estação

E a saudade no coração

Minha vida é andar...

Mar e terra

Inverno e verão

Mostra o sorriso

Mostra a alegria

Mas eu mesmo não

E a alegria no coração

Minha vida é andar...